Embora desde sempre o ser humano tenha que lidar com frustrações, das mais complexas às mais corriqueiras, não é mera suposição afirmar que as gerações mais jovens têm maior dificuldade em lidar com expectativas e objetivos que não se concretizaram.
A ideia de encontrar uma “vocação” já na adolescência costuma ser associada às novas gerações e à possibilidade de escolher livremente uma trajetória profissional. No entanto, para quem nasceu entre 1950 e 1960, começar a trabalhar ainda muito jovem não era fruto de um desejo pessoal, mas sim de uma necessidade econômica e social marcada pelo contexto da época.
Um estudo publicado no The Journal of Pediatrics, de autoria de Peter Gray, David Lancy e David Bjorklund, concluiu que lidar melhor com a frustração e os sentimentos negativos comumente associados a ela é mesmo uma característica mais presente entre aqueles que cresceram durante as décadas de 1950 e 1960.
A constatação de que homens e mulheres que fazem parte dessa faixa etária costumam ser mais tolerantes e lidar com mais facilidade com momentos difíceis da vida não é mera coincidência. Na realidade, ela está relacionada ao contexto socioeconômico da época.
Segundo o estudo, durante as décadas que abrangem a chamada geração baby boomer (nascidos entre 1946 e 1964, no período pós-Segunda Guerra Mundial), o contexto financeiro e as relações interpessoais desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento dessa habilidade.
A forma como as crianças da época foram criadas e o senso de responsabilidade a ela atribuídos foi crucial para que pudessem se desenvolver com mais autonomia. Uma capacidade desenvolvida tanto nas pequenas decisões do dia a dia, quando as crianças contavam menos com a supervisão de adultos, quanto na forma como se relacionavam diretamente, brincando na rua e não por meio de telas.
Embora nem sempre os fatores que levaram a essa independência prematura sejam nobres, já que muitas crianças precisavam “crescer rápido” pois não tinham acesso à educação e eram obrigadas a trabalhar desde cedo para ajudar financeiramente em casa, as relações sociais da época também contribuíram para que essa geração fosse mais resiliente.
Ainda segundo o artigo, essa autonomia dada às crianças mudou drasticamente a partir dos anos 1960 e vem diminuindo gradualmente desde então.
Embora esse fator, por si só, não explique as dificuldades enfrentadas pelas gerações mais jovens, ele ajuda a compreender por que muitos especialistas apontam uma menor tolerância à frustração na sociedade contemporânea. E, também, mostra que a forma como cada geração cresce, se relaciona e enfrenta desafios desde cedo pode influenciar diretamente na maneira como lida com as inevitáveis frustrações da vida adulta.